Bastidores da Guerra ao Crime: Como a PF Tirou R$ 5,6 Bilhões do Cofre das Facções — e Escancarou o Poder Paralelo

Crime Organizado

Em 29 de janeiro de 2025, a Polícia Federal (PF) divulgou um dado que reverberou no sistema de segurança, na política e nas redações do país — em 2024, operações coordenadas causaram um prejuízo de R$ 5,6 bilhões ao crime organizado, um salto de 70% em relação aos R$ 3,3 bilhões avaliados em 2023. Serviços e Informações do Brasil+2Agência Gov+2

Mas esse número é mais do que uma cifra impressionante. Ele revela uma mudança de paradigma: a criminalidade não está sendo combatida hoje apenas no tiroteio ou nas prisões, mas nas planilhas bancárias, nas fintechs, nas propriedades luxuosas — ou seja, no terreno financeiro onde as facções organizadas alimentavam seu poder paralelo.

Esta reportagem explora como a “desarticulação financeira” se tornou a principal frente de batalha contra o crime organizado no Brasil, e quais implicações essa estratégia traz para a institucionalidade, a segurança pública e o futuro da guerra contra facções.

O novo foco: desarticular dinheiro, quebrar estrutura

Durante a cerimônia de apresentação do balanço, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, deixou claro o que está em jogo: “não se trata apenas de prender, mas de desmontar as estruturas financeiras dessas organizações criminosas”. Serviços e Informações do Brasil+1

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, reforçou essa premissa. Segundo ele, o combate eficaz ao crime organizado passa pela “prisão das principais lideranças” e estancar o poder econômico dessas redes. VEJA+1

Os resultados falam por si:

Dessa forma, o golpe nas finanças se concretiza tanto no dinheiro em espécie quanto nos ativos que sustentavam a estrutura criminosa — operações, logística, poder de influência e infiltração.

Por que esse tipo de ofensiva importa

Erosão do poder paralelo

Organizações criminosas tradicionalmente dependem de uma infraestrutura paralela robusta: financiamento, lavagem de dinheiro, rede de empresas de fachada, estrutura de distribuição de drogas e armas. Ao romper essa cadeia, o Estado não só prende cabecilhas — como também enfraquece a capacidade logística e de reinvestimento dessas facções.

Redução da recidiva e do controle territorial

Sem dinheiro, torna-se mais difícil manter o controle sobre pontos de venda de drogas, pagar milicianos, subornar autoridades, manter tráfico de armas ou expandir influência territorial. Isso reduz o “custo de controle” e torna mais difícil a retomada da estrutura.

Internalização da resposta institucional

A mobilização não depende apenas de operações pontuais de rua. A estratégia envolve inteligência financeira, cooperação entre polícias, congelamento de contas, bloqueio de bens — todas medidas que exigem estrutura institucional consolidada.

Pressão e visibilidade públicas

Ao tornar públicos os números e os resultados, o Estado envia um recado: o crime organizado pode ser atingido em seu ponto mais vulnerável — o dinheiro. Isso gera desconfiança interna nas facções e dificulta a manutenção da “fachada do poder”.

Limitações e desafios da estratégia

Por mais eficaz que pareça, a desarticulação financeira também enfrenta obstáculos estruturais — e nem sempre garante resultados de longo prazo. Entre os desafios mais evidentes:

  • Valoração e homologação dos bens apreendidos: conforme admitiu o diretor da PF, parte dos bens ainda depende de perícia e registro oficial, o que significa que o valor final de R$ 5,6 bilhões pode aumentar — ou ter parte questionada. VEJA+1
  • Capacidade de adaptação das facções: organizações criminosas podem tentar novas formas de lavagem, usar criptomoedas, empresas de fachada, redes internacionais — dificultando o rastreamento.
  • Coordenação e manutenção institucional: essa estratégia exige integração entre agências, compartilhamento de dados, sistemas robustos de inteligência; toda perda de coordenação penaliza o combate.
  • Risco de reincidência: confiscar bens não elimina a ideologia criminosa nem impede que a estrutura se reorganize — especialmente se o crime continuar gerando lucros altos e persistir a demanda por drogas ou contrabando.

Impacto institucional e o fortalecimento da PF

O balanço recente revela mais do que eficiência operacional — evidencia um amadurecimento institucional da PF. Serviços e Informações do Brasil+1

A expansão da FICCO — de 27 para 33 bases entre 2023 e 2024 — indica um esforço de estruturação nacional da atuação integrada. Serviços e Informações do Brasil+1
Além disso, o recorde de apreensões e a rapidez no encerramento dos inquéritos — tempo médio caiu de 621 para 461 dias — mostram maior celeridade, eficiência e capacidade de resposta da instituição. Agência Gov+1

Com isso, a PF se reposiciona como peça central no combate ao crime organizado não apenas com armas, mas com estratégia, governança e som de inteligência institucional — dando ao Estado maior controle sobre o poder paralelo e limitando a ação de facções.

O crime se ajusta — e o desafio volta a crescer

Mas as facções não ficam de braços cruzados. Investigações recentes mostram que o uso de fintechs, fundos de investimento, empresas de fachada e esquemas de lavagem de dinheiro sofisticados vem sendo ampliado por grupos como o PCC — que já teria infiltrado o sistema financeiro, portos, postos de combustíveis e outras áreas sensíveis da economia. Berliner Tageblatt+2C4ADS+2

Além disso, operações continuam em 2025, com prisões e bloqueios que indicam, paradoxalmente, tanto um avanço do controle estatal quanto um crescimento da sofisticação criminosa. Poder360+1

Isso reforça a necessidade de evolução constante da estratégia de combate: não basta apreender bens de hoje — é preciso desmantelar redes, rastrear fluxos, cortar acesso a serviços financeiros, prevenir a reciclagem do dinheiro.

O que esse movimento representa para a segurança pública e para o futuro

Para a sociedade, a “guerra silenciosa ao dinheiro do crime” representa uma aposta de longo prazo. Se bem-sucedida, pode minar definitivamente as bases econômicas do crime organizado — tornando inviável a manutenção de redes criminosas.

Para o Estado, significa afirmação institucional: adotar inteligência financeira, governança integrada, investimento em tecnologia, cooperação entre polícias estaduais, federais, judiciais e financeiros.

Para as facções, representa a necessidade de adaptação — o crime se torna mais caro, mais visível e mais arriscado. Isso pode gerar instabilidade interna, disputas internas e fugas de comando — o que pode ser tanto uma oportunidade quanto um risco para a estabilidade das redes criminosas.

Em última análise, a estratégia de desarticulação financeira redefine o mapa da guerra ao crime organizado: não é mais só rua, fuzil e cadeia — é planilha contábil, auditoria, bloqueio judicial, rastreamento de ativos.

Panorama

O balanço de 2024 da PF marca um ponto de inflexão na política de segurança do Brasil. Ao tirar R$ 5,6 bilhões das mãos do crime organizado, restaurar o fluxo financeiro legal e fortalecer a capacidade institucional, o Estado lança as bases de um combate mais estratégico, duradouro e profundo contra facções criminosas.

Mas não se trata de vitória final — a adaptação do crime e a necessidade de vigilância constante exigem que a ofensiva continue, evolua e incorpore novos instrumentos: tecnologia, cooperação internacional, regulamentação financeira, transparência institucional.

A guerra ao crime agora se dá tanto no asfalto quanto nos extratos bancários — e quem controla o fluxo financeiro passa a dominar o jogo.

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