Na madrugada de 28 de outubro de 2025, forças policiais do Estado do Rio de Janeiro — civis e militares, incluindo unidades especiais — deflagraram a Operação Contenção, com o objetivo declarado de atingir lideranças e membros da facção Comando Vermelho (CV) nas favelas do Complexo do Alemão e do Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio. Cerca de 2.500 agentes participaram, com apoio de blindados, helicópteros e táticas de cerco. Wikipedia+2Al Jazeera+2
Oficialmente, a ação resultou em 121 pessoas mortas (incluindo quatro policiais) e dezenas de prisões. TV Brasil+2The Business Standard+2 As autoridades declararam que muitos dos alvos “resistiram à abordagem policial”. euronews+2The Guardian+2
No entanto, nas horas e dias que seguiram à operação, as cenas que emergiram chocaram a opinião pública: dezenas de corpos — muitos completamente despidos ou apenas de roupas íntimas — foram carregados por moradores até a praça central da comunidade, em vez de terem seus cadáveres recolhidos diretamente por forças do Estado. CNN Brasil+2VEJA+2
Essas imagens e relatos levantaram uma série de perguntas que vão muito além da estatística de mortos: o que motivou a remoção de roupas e equipamentos dos corpos? Quem tinha interesse na mudança da narrativa? Há sinais de adulteração de cena? Houve falhas grosseiras nas garantias de direitos humanos e no protocolo de perícia?
O fenômeno da subtração de roupas e o transporte de corpos pelas comunidades
O que se sabe — relatos e versões oficiais
- Moradores das comunidades onde ocorreu a operação declararam, já na manhã seguinte, que teriam recolhido “dezenas de corpos” encontrados na mata — área onde ocorrera a troca de tiros. Eles os transportaram em caminhonetes/trucks até uma praça no centro da comunidade. CNN Brasil+2Human Rights Watch+2
- Fotos e vídeos que começaram a circular mostravam corpos nus ou de cueca/roupa íntima, amontoados, expostos — e cidadãos comuns apontavam para a polícia exigindo justiça, bradando contra o que chamavam de “massacre”. VEJA+2ABC+2
- Segundo o secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, muitos dos mortos teriam usado roupas camufladas e coletes durante os confrontos — mas, ao serem exibidos pelos moradores, apareciam apenas de roupa íntima ou roupa simples, sem armas ou equipamentos. Ele afirmou que isso seria investigado como possível adulteração de provas. ABC+2BostonGlobe.com+2
- A versão oficial sugere que os criminosos teriam trocado de roupa antes de deixar a mata — a despeito de terem morrido em confrontos — o que para o governo, explicaria o “milagre” da camuflagem sumir tão rapidamente. ABC+2BostonGlobe.com+2
Por que isso é extraordinário — questões de cena do crime e protocolo forense
Para especialistas e entidades internacionais de direitos humanos, a remoção de roupas e o transporte dos corpos por civis constituem falhas graves no procedimento de preservação do local do crime e da cadeia de custódia das provas. Human Rights Watch+2Human Rights Watch+2
- A área onde os corpos foram abandonados era uma mata — tipicamente considerada cena de crime. Nas circunstâncias normais, autoridades forenses deveriam isolar o perímetro, preservar evidências como roupas, equipamentos, cápsulas de projéteis, resíduos de pólvora etc. Human Rights Watch+1
- A ausência de perícia imediata — ou a incapacidade de controlarem o acesso à área — abre espaço para adulteração de cena: roupas poderiam ser removidas, armas e vestimentas trocadas, ferimentos inseridos ou ocultados, objetos plantados, tudo dificultando a identificação de eventuais excessos, execuções arbitrárias ou mortes fora de confronto. Human Rights Watch+2Human Rights Watch+2
- Quando os corpos foram levados à praça e posteriormente ao IML para necropsia, não havia perícia no local onde os cadáveres foram amontoados. A cadeia de custódia dos corpos e provas estava comprometida. Human Rights Watch+1
- Mesmo nas autópsias, há relatos de estrutura deficiente: número insuficiente de peritos, subinvestimento crônico em serviço forense, o que pode comprometer a qualidade de laudos, catalogação de lesões, identificação de armas, trajetória de projéteis, presença de pólvora, ferimentos por corte — enfim, evidências essenciais para distinguir entre “resistência à ação policial” e execuções sumárias. Human Rights Watch+1
Ou seja: a forma como os corpos foram tratados após a operação torna extremamente difícil reconstruir, com segurança técnica, o que de fato ocorreu. Isso torna a remoção de roupas e transporte por civis um fator crítico de distorção das evidências.
Suspeitas, interesses e motivações por trás da subtração de roupas e exposição dos cadáveres
Qual poderia ser a motivação para essa sequência de eventos — usuários recolhendo corpos; retirada de camuflagens; exposição pública dos cadáveres? Algumas hipóteses se destacam:
1. Manipulação narrativa — “provar” que os mortos não eram combatentes armados, mas vítimas indefesas
Se os corpos fossem exibidos apenas de roupa íntima, sem armas ou coletes, a narrativa visual se aproxima de “vítimas indefesas” executadas — e não de “traficantes fortemente armados” neutralizados em confronto. Essa narrativa pode alimentar acusações de massacre, abuso de poder, execução sumária, aumentando a pressão política, midiática e judicial sobre o Estado.
Para quem quer questionar a operação — ativistas, ONG, familiares — esse tipo de imagem funciona como símbolo de brutalidade e injustiça. A rapidez da remoção de roupas e a exposição pública favorecem essa narrativa.
2. Adulteração para apagar vestígios de armas ou munições — dificultar perícia balística ou de resíduo de pólvora
Roupas camufladas, coletes e equipamentos podem conter resíduos, fragmentos, pólvora, estojos vazios, marcas de impacto, fragmentos de projéteis — evidências cruciais. Ao removê-los, torna-se mais difícil vincular ferimentos a armas usadas — quem matou quem, se foram tiros ou facadas, se houve mutilação.
Algumas reportagens afirmam que há indícios de ferimentos gravíssimos, mutilações, até cortes por faca. ABC+2Al Jazeera+2 A remoção de roupas e equipamentos evidencia uma possível adulteração da cena do crime, comprometendo a investigação.
3. Culpar a “comunidade” — transformar moradores em responsáveis pela exposição e revolta pública
Ao sustentar que os corpos foram removidos por moradores antes da chegada da polícia forense, o Estado pode delegar à população a responsabilidade pela exposição, possivelmente desviando o foco das autoridades. Isso também permite uma narrativa onde “a comunidade expôs os corpos e acusou a polícia”, o que pode gerar tensão social, opinião pública contra o policiamento, pressão internacional por investigação.
Em certa lógica, a remoção de roupas e a exposição pública servem como evidência simbólica: não apenas de mortes em massa, mas de vergonha, desrespeito — ampliando o impacto midiático da tragédia.
4. Falha institucional / negligência — despreparo no plano de preservação de local de crime
Não podemos descartar a hipótese — apontada por organizações de direitos humanos — de que tudo decorreu de falha operacional: falta de planejamento para isolar a mata; subdimensionamento da necessidade de perícia em grande escala; ausência de body‑cameras em grande parte dos agentes; insuficiência de pessoal forense; e incapacidade institucional de gerenciar os corpos e preservar evidências. Human Rights Watch+2Human Rights Watch+2
Se for este o caso, estamos diante não de uma manipulação consciente, mas de um colapso institucional — o que em si já é gravíssimo, dado o número de vidas envolvidas e a responsabilidade do Estado.
Falhas forenses, de investigação e o risco de impunidade
Para além da subtração de roupas, a Operação Contenção expôs deficiências graves no sistema de investigação criminal e forense do Rio — que podem comprometer a responsabilização, a justiça, e perpetuar o ciclo de violência sem confiabilidade.
- A falta de perícia no local da morte — mata e praça — privou a investigação de elementos essenciais: resíduos de pólvora, estojos, trajeto dos projéteis, vestígios em roupas/equipamento. Isso inviabiliza reconstruções confiáveis. Human Rights Watch+1
- A necropsia e a análise técnica foram sobrecarregadas pela escala: dezenas de corpos, estrutura forense insuficiente, possibilidade de laudos superficiais, sem a presença de defensores públicos ou representantes das vítimas. Human Rights Watch+1
- A cadeia de custódia foi seriamente comprometida: corpos transportados por civis, armazenagem coletiva, sem lacres ou documentação equivalente à de uma cena de crime. Numa audiência judicial, advogados de familiares ou de defensores públicos podem argumentar que as provas foram adulteradas.
- A ausência de bodycams em grande parte dos agentes impede reconstruir como ocorreu cada confronto — quantos tiros, de onde, quem atirou, se houve rendição, perseguição, execução. Há relatos de estratégia conhecida de emboscada (“troia”) e uso de cobertura de moradias para disparar contra suspeitos. Human Rights Watch+1
Dados esses déficits, difícil imaginar como se poderá estabelecer com transparência e confiança: se todas as mortes ocorreram em legítima resposta policial; se houve execuções; se civis foram atingidos; se houve superexposição de feridos; se os mortos eram de fato integrantes armados do CV.
Contexto político, social e simbólico: por que esse episódio repercute tanto
A escalada da “guerra às favelas”
A Operação Contenção representa a maior ação policial já registrada no Rio em termos de letalidade. A amplitude — 2.500 agentes, blindados, helicópteros, comunidades inteiras — e o saldo devastador de mortos reverberam como um marco na escalada da repressão estatal às favelas. The Guardian+2TV Brasil+2
Governantes e autoridade tratam a ação como “combate ao narco-terrorismo”, “retomada de território” — um discurso de guerra urbana. The Guardian+2TV Brasil+2 Por outro lado, comunidades, organizações de direitos humanos e parte da sociedade veem como massacre, violação sistemática de direitos e prova de falhas estruturais no aparato de segurança e justiça.
A disputa pela narrativa
No momento histórico de polarização política, apartada de guerra contra o crime, violência e desigualdade, imagens têm um poder simbólico enorme. Corpos expostos, nus, amontoados — evocam horror, injustiça, brutalidade. Isso mobiliza indignação, protestos, pressão internacional (ONGs, organismos de direitos humanos, imprensa estrangeira).
Se, por outro lado, aparecessem como corpos de “trapaceiros camuflados com armas e coletes”, haveria justificativa mais fácil para a operação. A remoção de roupas e a exposição pública, portanto, funcionam como arma simbólica — interessam tanto para quem denuncia o Estado quanto para quem pressiona pela responsabilização.
O risco de impunidade e de normalização da violência
O colapso institucional revelado — insuficiência de perícia, negligência na preservação de cena do crime, ausência de transparência — alimenta o risco de impunidade. Se muitos dos mortos não puderem ser vinculados a provas concretas de confronto, se laudos forem frágeis ou contestados, dificilmente famílias terão justiça. Isso reforça a tese de que enfrentamentos desse tipo podem se repetir, com pouca responsabilização.
Para o sistema penal e de segurança, esse precedente problemático reforça a normalização da violência extrema como instrumento de “segurança pública” — mesmo em contexto de dúvidas graves sobre o que de fato aconteceu.
Quem lucra com o caos — hipóteses de interesses que vão além da “desarticulação do tráfico”
Considerando a escala e o impacto da operação, não é absurdo imaginar que há interesses estruturais — políticos, midiáticos, simbólicos — por trás dessa ação e da forma como ela foi conduzida. Algumas hipóteses:
- Legitimação do governo ou de grupos de poder: exibir resultados “expressivos” contra o crime, demonstrar força estatal em favelas — isso impulsiona a narrativa de “lei e ordem”, importante em cenários eleitorais ou de disputa por imagem política.
- Desmobilização de apoio internacional a políticas de intervenção urbana e direitos humanos: se a narrativa dominante se tornar “as vítimas eram traficantes camuflados”, haverá menor pressão por investigações internacionais ou punições — o que beneficia autoridades que atuam com táticas de letalidade.
- Desarticulação de redes de apoio ao crime via intimidação: operações desse porte e gravidade funcionam como demonstrações de poder — não apenas sobre criminosos, mas sobre comunidades, futuros delatores, potenciais criminosos. O medo, a insegurança e a desmoralização coletiva podem paralisar resistências.
- Manutenção de um ciclo de violência e controle social via conflito armado: a favela como teatro de guerra, onde a lógica de confrontos, ocupação e dominação territorial se sobrepõe à lógica de direitos, justiça e política social. A remoção de provas facilita a impunidade e legitima esse regime de exceção.
Vozes críticas: denúncia de falhas, pedido de investigação e reação da sociedade
Logo após a operação, entidades de direitos humanos reagiram fortemente. A Human Rights Watch (HRW) qualificou o episódio como evidência de “falhas investigativas graves” e pediu uma investigação independente e completa. Human Rights Watch
Autoridades do Estado prometeram apuração — especialmente sobre a retirada de roupas e possível adulteração de evidências. Human Rights Watch+2The Business Standard+2
Há manifestações públicas de moradores, ativistas, defensores de direitos humanos e da sociedade civil denunciando o que consideram um massacre, não operação policial. Protestos foram convocados, com pedidos de responsabilização política, apresentação de laudos, transparência, acesso das famílias às vítimas e investigação imparcial. Al Jazeera+2ABC+2
Enquanto isso, defensores de segurança pública e de endurecimento do combate ao crime argumentam que a operação era necessária — ressalvando a gravidade da ação, mas apontando a letalidade do CV, o uso de armamento pesado, drones, barricadas e a complexidade da favela como palco de guerra. The Guardian+2euronews+2
O que está por trás de tudo isso — síntese das hipóteses e riscos concretos
Analisando o conjunto de evidências, relatos e contextos, é possível formular uma interpretação sistêmica do que “pode estar por trás” da remoção de roupas e da maneira como a operação foi conduzida:
- Despreparo institucional grave — a estrutura policial/forense do Rio demonstra incapacidade de lidar com operações em grande escala respeitando mínimos protocolos de direitos humanos. Essa falha institucional, por si só, já contamina qualquer investigação.
- Manipulação da narrativa pública — ao permitir que corpos fossem exibidos despidos e em massa, cria‑se um forte impacto simbólico que favorece um quadro de “massacre”, gerando comoção, denúncia, pressão política e midiática. Isso pode servir a interesses de grupos que desejam desacreditar o aparato de segurança ou de governos, ou mesmo de desafiar o modelo de militarização da segurança.
- Possível ocultação de provas e favorecimento da impunidade — a remoção das camuflagens, coletes, armas e itens de vestimenta inviabiliza investigação balística, de pólvora e de circunstâncias concretas de morte. Isso dificulta responsabilização de agentes ou criminosos — ou de ambos.
- Uso da violência extrema como instrumento simbólico e de controle social — a favela como zona de guerra, no qual corpos expostos simbolizam poder, medo, dominação. E o Estado (ou certos grupos) pode usar isso para reafirmar controle, coibir resistência, reforçar repressão.
- Contexto político e midiático favorável à polarização — em tempos de polarização, ataques e sentidos simbólicos têm força de mobilização. O horror gerado pelas imagens e relatos pode ser instrumentalizado para pressionar governo, tribunais, opinião pública — ou para mudar a agenda de segurança, direitos humanos, justiça.
Por que este caso é crucial — implicações para direitos humanos, justiça e democracia no Brasil
Este episódio não é apenas mais uma reportagem sobre confronto policial; ele revela aspectos estruturais e sistêmicos que ameaçam a confiabilidade das instituições judiciais, da segurança pública e do Estado de direito no Brasil. Eis os pontos centrais de risco:
- Quando a execução de operações policiais deixa de ser regida por protocolos claros de preservação de cena, cadeia de custódia, perícia, transparência — cada morte se torna um ponto cego para a justiça. Isso fragiliza todo o sistema de responsabilização e dá espaço à impunidade.
- A eliminação de provas por manipulação ou negligência cria um precedente perigoso: normaliza a destruição de evidências, inviabiliza a reconstrução dos fatos e favorece narrativas contrastantes — quem viver verá.
- A violência extrema contra populações vulneráveis (moradores de favelas) legitima uma lógica de guerra urbana, violência estatal e controle social por intimidação — algo incompatível com democracia e direitos humanos.
- A disputa midiática de narrativas — “traficantes fortemente armados neutralizados” vs. “massacre de jovens pobres” — mostra como as informações e imagens podem ser armas simbólicas, com poder de influenciar políticas públicas, investigações e mobilização social.
- Finalmente: sem transparência, sem perícia isenta, sem comprovação confiável, famílias de vítimas, sociedade civil e organismos de direitos humanos ficam sem meios de buscar justiça — perpetuando dor, injustiça e desconfiança institucional.
O horror da impunidade sob o manto da “segurança pública”
A Operação Contenção não pode ser vista apenas como mais uma ação policial contra o crime organizado. O que se tornou público — corpos nus expostos, remoção de roupas camufladas, transporte por civis, falhas forenses — revela algo mais profundo: uma crise de legitimidade.
Quando o Estado — que deveria garantir justiça, investigações transparentes, respeito à dignidade humana — produz cenas análogas a chacinas, expõe corpos sem rigor técnico, negligencia perícia, deixa a comunidade carregar cadáveres — ele mina a confiança pública, fragiliza os instrumentos da lei e cria um terreno fértil para impunidade e revitimização.
Por trás da subtração de roupas e da exposição dos mortos pode haver um cálculo — simbólico, midiático, político — ou pode haver uma falha estrutural, institucional. Ou ambos. Em qualquer dos cenários, o resultado é devastador: vidas perdidas, famílias sem justiça, ferida aberta na democracia e nos direitos humanos.
Para quem busca não apenas relatar, mas analisar, contextualizar e questionar — o desafio não é apenas explicar o que aconteceu. É insistir para que se investigue — a fundo, de verdade — e que se garanta que o horror não se torne regra, nem instrumento de dominação.
Alexandre Andrade