A Operação Sem Desconto foi deflagrada em abril de 2025 pela Polícia Federal (PF), em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), com o objetivo de desarticular um esquema nacional de descontos associativos não autorizados aplicados a benefícios previdenciários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) — especialmente aposentadorias e pensões. (gov.br)
De acordo com os órgãos, o total descontado irregularmente entre 2019 e 2024 pode chegar a R$ 6,3 bilhões. (gov.br)
As investigações apontam que a maior parte dos segurados afetados não autorizou os descontos: levantamento da CGU indicou que cerca de 97% dos beneficiários entrevistados declararam não ter concedido consentimento. (gov.br)
Como o esquema funcionava
O mecanismo usado pelas entidades investigadas envolvia a formalização de Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS, o que permitia que associações, sindicatos ou entidades representativas realizassem descontos de “mensalidades associativas” diretamente na folha de pagamento dos benefícios. (gov.br)
O problema é que, conforme a investigação, muitos desses descontos foram feitos sem qualquer autorização dos beneficiários — em flagrante desrespeito às regras de consentimento. (gov.br)
Além disso, a CGU apontou que 70% das entidades investigadas não apresentaram à autarquia a documentação completa exigida para formalizar os ACTs. (gov.br)
As mensalidades cobradas por essas entidades chegavam a R$ 81,57 mensais — valores que, ao longo dos anos, se acumularam de forma expressiva, afetando milhões de aposentados e pensionistas. (gov.br)
Fases da investigação e medidas iniciais
A primeira fase da operação foi deflagrada em 23 de abril de 2025. Na ocasião, cerca de 700 policiais federais e 80 auditores da CGU cumpriram 211 mandados judiciais de busca e apreensão, seis mandados de prisão temporária e ordens de sequestro de bens avaliados em mais de R$ 1 bilhão. (gov.br)
Seis servidores públicos foram afastados de suas funções no âmbito da operação. (gov.br)
No dia seguinte, o ministro da CGU, Vinícius de Carvalho, anunciou a suspensão imediata de todos os descontos associativos sobre benefícios do INSS. Os valores retidos seriam devolvidos já na folha de pagamento de junho. (gov.br)
O objetivo declarado foi garantir que aposentados e pensionistas recebessem seus benefícios integrais, sem descontos não autorizados. (gov.br)
Expansão da investigação: novas fases e desdobramentos
Nos meses seguintes, a operação ganhou escala. Em setembro de 2025, a PF deflagrou uma fase chamada Operação Cambota — considerada desdobramento da Sem Desconto — com mandados no Distrito Federal e em São Paulo, visando atingir supostos “operadores financeiros” ligados às associações investigadas. (agenciabrasil.ebc.com.br)
Em novembro de 2025, houve uma nova fase significativa da Sem Desconto: foram cumpridos 63 mandados de busca e apreensão e 10 mandados de prisão preventiva em 15 unidades da federação. A ação envolveu PF e CGU. (agenciagov.ebc.com.br)
Segundo declarações de autoridades, essa etapa alcançou “pessoas-chave” do esquema — inclusive ex-altos dirigentes do INSS, dirigentes de associações e outras autoridades suspeitas. (agenciabrasil.ebc.com.br)
Os alvos eram suspeitos de crimes como corrupção ativa e passiva, falsificação de documentos, violação de sigilo funcional, associação criminosa e lavagem de dinheiro. (gov.br)
Impactos sobre beneficiários e o erário público
- Estima-se que milhões de aposentados e pensionistas tenham sido lesados com descontos não autorizados. (gov.br)
- Com a suspensão dos descontos e a medida de devolução, o governo pretende restaurar os valores conforme o pagamento de junho de 2025. (gov.br)
- A operação serviu como alerta institucional: a CGU recomendou a adoção de mecanismos como biometria e assinatura eletrônica para autorizar descontos, a fim de evitar fraudes semelhantes no futuro. (gov.br)
- Sob pressão pública e institucional, o esquema levou ao afastamento de ao menos seis servidores públicos ligados ao INSS. (gov.br)
O que sabemos até agora — e o que ainda deve ser esclarecido
Até o presente momento:
- A PF e a CGU cumpriram centenas de mandados, indicando abrangência nacional da investigação. (gov.br)
- O montante estimado de recursos descontados irregularmente — R$ 6,3 bilhões — demonstra a escala da suposta fraude. (gov.br)
- A maioria dos beneficiários entrevistados declarou não ter autorizado os descontos. (gov.br)
- As investigações apontam irregularidades não apenas na cobrança, mas também na formalização incompleta dos ACTs e no papel de associações com fins questionáveis. (gov.br)
Por outro lado, ainda existem incertezas importantes:
- A identificação de todos os beneficiários que tiveram descontos indevidos — a devolução parece ocorrer em lotes e depende de conferência individual.
- O grau de envolvimento de diferentes entidades sindicais, associações e pessoas jurídicas (algumas possivelmente “de fachada”).
- A responsabilização judicial definitiva — ao menos até agora, foram prisões preventivas e mandados, mas o curso completo dos processos dependerá de instruções e julgamentos.
- Medidas estruturais para evitar a repetição do esquema — embora a CGU tenha recomendado biometria e assinatura eletrônica, ainda não há garantia de que todas essas medidas estejam implementadas de forma uniforme e imediata.
A Operação Sem Desconto representa um dos maiores golpes do Estado brasileiro contra fraudes em benefícios previdenciários nos últimos anos. Ao mirar um esquema sistemático de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões, a PF e a CGU buscam não apenas recuperar valores lesados — mas também restaurar a confiança de milhões de beneficiários do INSS.
O valor expressivo estimado, o alcance nacional e a mobilização de centenas de agentes públicos e auditores reforçam a gravidade da denúncia. O desmonte do esquema pode servir de marco: forçar mudanças estruturais na forma como descontos associativos são autorizados e fiscalizados, e criar precedentes importantes para a proteção dos direitos dos aposentados e pensionistas.
Para que o impacto seja completo, será essencial:
(a) garantir a devolução integral aos lesados;
(b) responsabilizar os autores — de dirigentes de associações a funcionários públicos;
(c) implementar mecanismos seguros de autorização de descontos; e
(d) manter transparência sobre os desdobramentos.
Acompanhar os novos capítulos da investigação e seus desfechos judiciais será crucial.