A Falência Moral de uma Nação

Editoriais

Essa anestesia não é acidental. Ela é fruto de um processo longo, cumulativo, alimentado por escolhas reiteradas e omissões confortáveis.

Há um sentimento que não aparece nas estatísticas, não é mensurado por indicadores econômicos e não costuma ser capturado por pesquisas de opinião. É um sentimento silencioso, incômodo, persistente. Vergonha. Vergonha não como emoção episódica, mas como estado contínuo de consciência. A vergonha de explicar o Brasil. A vergonha de defendê-lo. A vergonha, sobretudo, de perceber que já não se tenta mais.

Por décadas, observei o debate público brasileiro degradar-se não apenas em termos de qualidade institucional, mas de densidade moral. O problema nunca foi exclusivamente a corrupção. Países corruptos existem muitos. O que distingue o Brasil contemporâneo é a naturalidade com que o escândalo foi incorporado à rotina. A corrupção deixou de ser ruptura. Tornou-se cenário.

Houve um tempo em que denúncias causavam choque. Jornais eram abertos com indignação, conversas cessavam em mesas de bar, famílias discutiam política com algum grau de paixão moral. Hoje, as manchetes passam como ruído de fundo. Mais uma denúncia, mais um flagrante, mais uma gravação, mais um desvio. Nada se sustenta por mais de 48 horas. O espanto morreu. E quando uma sociedade deixa de se espantar, algo essencial já se perdeu.

Essa anestesia não é acidental. Ela é fruto de um processo longo, cumulativo, alimentado por escolhas reiteradas e omissões confortáveis. Décadas de votos dados sem critério moral, de justificativas cínicas, de relativizações sucessivas. “Todos são assim”, “rouba, mas faz”, “não há alternativa”. Cada frase dessas é um tijolo a mais na construção da falência moral.

O voto, que deveria ser o ato mais elementar de responsabilidade ética em uma democracia, foi esvaziado de significado. Tornou-se gesto mecânico, hábito social, instrumento de barganha emocional ou material. Vota-se por identidade, por ressentimento, por promessa imediata ou por simples inércia. Raramente por princípios. Raramente por caráter. Raramente por uma noção clara de bem comum.

Não se trata de ignorância pura. Trata-se, muitas vezes, de conveniência. A conveniência de não pensar demais. A conveniência de não assumir o peso das consequências. A conveniência de delegar a outros — sempre a outros — a culpa pelo resultado final. O eleitor brasileiro, em larga medida, aprendeu a dissociar sua escolha individual do colapso coletivo que se segue.

Há também a figura do cidadão funcionalmente indiferente. Não é o militante barulhento nem o corrupto ativo. É aquele que segue a vida com pragmatismo absoluto. Se o salário cai na conta, se o benefício chega, se o negócio prospera, todo o resto é ruído. A política torna-se algo distante, quase abstrato. Uma sujeira necessária, desde que não respingue demais.

Essa postura é talvez a mais corrosiva de todas. Porque ela legitima o sistema sem defendê-lo. Sustenta a engrenagem sem jamais questioná-la. É a moral do “cada um por si”, aplicada a uma sociedade que ainda finge ser comunidade.

Com o tempo, valores são substituídos por vantagens. A ética cede espaço ao cálculo. A integridade passa a ser vista como ingenuidade, quase um defeito. O discurso público se adapta a essa lógica: menos princípios, mais benefícios; menos responsabilidade, mais direitos dissociados de deveres. O Estado deixa de ser expressão de um pacto moral mínimo e passa a ser apenas um distribuidor de conveniências.

O resultado é uma sociedade que já não se reconhece em seus próprios ideais. Quando confrontado com o olhar estrangeiro, o brasileiro de bem sente um desconforto difícil de explicar. Não é apenas a imagem de um país corrupto. É a imagem de um país que convive bem demais com isso. Que se indigna pouco, esquece rápido e segue em frente como se nada essencial estivesse em jogo.

Para quem observa de fora, o espanto ainda existe. Para quem vive dentro, resta o constrangimento. A percepção de que algo está profundamente errado, mas também a suspeita incômoda de que esse erro não é apenas “dos políticos”. É estrutural. É cultural. É compartilhado.

O maior perigo não está nos escândalos em si. Está na capacidade quase perfeita que desenvolvemos de absorvê-los sem reação duradoura. O inaceitável tornou-se administrável. O absurdo tornou-se previsível. A exceção virou regra. E quando tudo é escândalo, nada mais escandaliza.

Chega-se, então, ao ponto mais delicado: a herança moral que está sendo transmitida. O que se ensina, implicitamente, às próximas gerações? Que caráter público é irrelevante. Que mentir compensa. Que sobreviver é mais importante do que preservar valores. Que adaptar-se a um sistema falido é sinal de inteligência, não de rendição.

Uma nação não entra em colapso moral de um dia para o outro. Ela se deteriora lentamente, por acomodação, por cansaço, por desistência. A falência moral não é declarada. Ela é normalizada.

Talvez o traço mais trágico desse processo seja a perda da vergonha como motor de mudança. A vergonha, quando saudável, provoca reação, correção de rota, ruptura. Quando silenciada, transforma-se apenas em peso. Um peso que se carrega calado, enquanto tudo segue igual.

Este texto não busca acusar indivíduos específicos nem explorar denúncias pontuais. Elas são abundantes e, paradoxalmente, irrelevantes diante do quadro maior. O que está em jogo é algo mais profundo: a erosão da consciência moral coletiva.

Uma nação pode ser pobre e digna. Pode ser rica e corrupta. O Brasil caminha para algo pior: a aceitação confortável da própria falência moral. E isso, diferentemente de crises econômicas ou institucionais, não se resolve com reformas técnicas. Exige algo mais raro, mais incômodo e mais difícil: um reencontro com a vergonha — não como humilhação, mas como último sinal de que ainda resta consciência.

Alexandre Andrade | Strategic Intelligence Analysis

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *