Cartéis Internacionais e o Risco de Operações de Força dos EUA no Entorno Brasileiro: A Nova Pressão sobre a Política de Segurança no Cone Sul

Geopolítica

A mudança estratégica anunciada por Washington, autorizando ações de força letal contra cartéis no Hemisfério Ocidental, representa a maior ruptura da política antidrogas norte-americana desde o início da Guerra às Drogas. O que antes era conduzido majoritariamente por agências civis, tratados de cooperação e operações de interdição pontuais agora migra para uma arquitetura que admite emprego de meios militares, ataques preventivos e ações unilaterais em zonas consideradas de “risco hemisférico”. Para o Brasil, que ocupa hoje posição crítica como corredor de cocaína, hub de precursores químicos e plataforma logística para o crime organizado, essa virada pode gerar impactos estratégicos profundos.

O novo paradigma ainda está em formação, mas suas diretrizes já foram sinalizadas na imprensa americana e em documentos internacionais. Relatórios da Reuters revelam que discussões internas no governo norte-americano incluem cenários de ação militar direta contra cartéis e designações legais que autorizariam operações extraterritoriais ampliadas. A linha geral é reforçada por reportagens do Washington Post, que descrevem como a ampliação do conceito de “armed conflict” com cartéis visa flexibilizar limites jurídicos da ação do Executivo dos EUA em ambientes de fronteira e rotas marítimas internacionais.

Esses movimentos ocorrem enquanto o fluxo global de cocaína atinge recordes históricos. O UNODC confirma que as rotas atlânticas via Brasil cresceram nos últimos cinco anos, impulsionadas por hubs logísticos no Norte e no Nordeste e pelo avanço de grupos brasileiros nas cadeias de exportação para Europa e África Ocidental. Nesse contexto, a nova política americana impõe ao Brasil um duplo desafio: enfrentar cobranças externas e, simultaneamente, reorganizar sua própria matriz de segurança regional.

Pressão por cooperação operacional: o novo vetor de cobrança

A principal consequência prática da nova postura norte-americana é a tendência de exigir que países do entorno — sobretudo aqueles identificados como “corredores estratégicos” — fortaleçam interoperabilidade, ampliem compartilhamento de inteligência e aceitem níveis mais altos de integração operacional. Análises do CSIS apontam que Washington enxerga a interdição marítima e aérea como campo prioritário e que, para que essas operações sejam efetivas, elas dependem da participação dos países de origem, trânsito e transbordo. Outra avaliação do mesmo centro observa que a classificação legal de grupos criminosos como atores de “ameaça transnacional armada” pode abrir portas para operações conjuntas sob comando americano, inclusive em águas internacionais adjacentes à costa brasileira.

Essa pressão se expressa de forma mais clara em três eixos:

  1. Integração avançada de inteligência. Os EUA devem intensificar pedidos para que o Brasil compartilhe dados sensíveis sobre movimentações de facções brasileiras com presença internacional, principalmente PCC e CV, hoje atuantes na Bolívia, no Paraguai e na fronteira Peru-Colômbia.
  2. Permissão para equipamentos, sensores e equipes dos EUA operarem na Amazônia e no Atlântico Sul, sob narrativa de combate às redes transnacionais.
  3. Exigência de endurecimento interno: ampliação de operações de fronteira, maior fiscalização sobre precursores químicos e subida de tom nas respostas a facções com presença consolidada em portos estratégicos.

O Brookings Institution reforça que o combate às redes de tráfico na América Latina tem sido um tema crescente na política interna dos EUA, com ciclos de pressão sobre países do Sul quando a percepção de ameaça cresce e o Congresso exige ações de impacto imediato para reduzir fluxos ilícitos de fentanil, cocaína e armas.

O risco de atrito diplomático: limites brasileiros diante da “ultrapolítica” americana

A possibilidade de operações unilaterais, especialmente marítimas, traz risco de atrito diplomático direto com Brasília. A Associated Press analisou as interpretações jurídicas sobre ataques a embarcações suspeitas e destacou como esse tipo de ação pode rapidamente violar princípios de proporcionalidade e proteção humanitária quando conduzida sem coordenação com Estados costeiros. Para o Brasil, cuja Zona Econômica Exclusiva se estende por mais de 3,4 milhões de quilômetros quadrados, vigilância externa não autorizada é considerada tema de soberania sensível.

A região amazônica representa risco ainda maior. A expansão de grupos transnacionais no eixo Tabatinga-Letícia-Santa Rosa e no arco fronteiriço com Venezuela e Guiana alimenta a possibilidade de que Washington proponha ou pressione por operações especiais de caráter preventivo em zonas onde a governança brasileira é frágil. No entanto, o Ministério da Justiça e Segurança Pública tem reforçado, em relatórios recentes, que a soberania amazônica é linha vermelha e que qualquer operação estrangeira deve seguir protocolos rígidos de cooperação bilateral e respeito a marcos legais internos.

O Brasil no mapa do crime organizado transnacional: por que os EUA vão aumentar o foco

Estudos da Global Initiative Against Transnational Organized Crime mostram que o Brasil emergiu como um “hub de múltiplos crimes”, combinando tráfico de drogas, extração ilegal de ouro, lavagem transnacional e controle de portos por facções com capacidade de articulação internacional crescente. Essa consolidação transforma o Brasil em peça central da segurança hemisférica aos olhos de Washington.

Além da cocaína, o país se conecta ao tráfico devido à sua malha logística de portos e aeroportos, fronteiras secas extensas e presença de facções com disciplina interna e comando externo. Relatório do governo britânico mapeia organizações criminosas brasileiras com ramificações no Peru, Bolívia, Paraguai, Guiana e até mesmo na Europa, indicando que a atuação desses grupos já transcende muito a dinâmica doméstica.

Essa dimensão transnacional reforça o argumento americano de que o crime brasileiro é “exportador de risco”, justificando maior pressão política por interoperabilidade.

Militarização do combate: riscos estruturais para o Brasil

A literatura nacional aponta que a militarização excessiva pode gerar efeitos contraproducentes. O Instituto Igarapé tem documentado há anos que respostas de força mal calibradas desorganizam arranjos criminais locais, mas frequentemente produzem fragmentação violenta, expansão territorial de grupos e maior letalidade em áreas sensíveis.

Se o Brasil for pressionado a adotar uma linha de choque alinhada à dos EUA, três riscos se destacam:

  1. Espiral de violência nos corredores amazônicos. Intervenções de alto impacto tendem a empurrar grupos criminosos para áreas de floresta, onde a presença estatal é fraca e a recuperação territorial é mais difícil.
  2. Deslocamento de rotas para portos menores e menos fiscalizados, ampliando vulnerabilidades costeiras no Norte e Nordeste.
  3. Aumento da dependência de tecnologia americana, reduzindo autonomia estratégica em temas sensíveis como monitoramento de comunicações, satélites e vigilância marítima.

Cenários de futura cooperação ou atrito

Com base nas análises reunidas, três cenários de evolução da crise podem afetar diretamente o Brasil:

Cenário 1: Cooperação profunda e controlada
O Brasil aceita ampliar integração com DEA, SOUTHCOM e órgãos de inteligência, mas estabelece limites claros para presença física de equipes americanas. Nesse caso, Washington apoia a modernização de radares, sistemas de vigilância e ações de interdição marítima, enquanto Brasília preserva autonomia.

Cenário 2: Pressão crescente e atritos diplomáticos
Se o Brasil resistir a compartilhamento ampliado de inteligência ou a permitir presença operacional, os EUA podem endurecer publicamente críticas ao país. O tema pode entrar na agenda do Congresso americano, gerando ruído político e efeitos econômicos indiretos.

Cenário 3: Ações unilaterais dos EUA em áreas adjacentes
Operações de marinha ou forças especiais dos EUA em águas internacionais próximas ao Brasil, ou em zonas de fronteira amazônica em coordenação com Colômbia ou Peru, podem surpreender Brasília e provocar tensão diplomática direta.

Como o Brasil deve reagir estrategicamente

A resposta brasileira precisa se ancorar em três pilares:

  1. Soberania negociada: aceitação de cooperação técnica, mas com protocolos diplomáticos rígidos e mecanismos de fiscalização brasileira sobre qualquer ação conjunta.
  2. Fortalecimento interno: investir no controle de portos, integração entre polícias, rastreamento de precursores químicos e fortalecimento do Sisfron, reduzindo argumentos externos de que o país é “zona de vazio”.
  3. Diplomacia ativa no Cone Sul: criar coalizões regionais para enfrentar rotas transnacionais sem depender exclusivamente da estratégia dos EUA.

A mudança na doutrina americana não é apenas tática: ela é estrutural e reposiciona o crime organizado como ameaça militar. O Brasil, situado no centro das rotas e vivendo uma fase de expansão de suas organizações criminosas, será alvo inevitável de expectativas, cobranças e vigilância. A questão agora é menos se haverá pressão, e mais como o país vai administrar essa pressão sem abrir mão de sua autonomia estratégica.

Alexandre Andrade

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