O esquema, a investigação e o impacto social
No final dos anos 1990, o Parque do Estado, em São Paulo, deixou de ser apenas uma área verde para se transformar no cenário de uma das mais perturbadoras séries de crimes do país. Entre trilhas isoladas e vegetação densa, Francisco de Assis Pereira — conhecido pela imprensa como Maníaco do Parque — construiu uma rota de aproximação que explorava sonhos, pobreza e a busca por oportunidades.
A estratégia do predador
Francisco trabalhava como motoboy e, em outros momentos, como chapeiro. À primeira vista, parecia um jovem comum da periferia. Por trás da aparência, contudo, havia um histórico de abusos na infância e sinais de comportamento violento. O que o tornou especialmente perigoso foi sua habilidade para identificar e explorar vulnerabilidades: sabia ouvir, construir confiança e oferecer promessas sedutoras.
Entre 1997 e 1998, ele adotou um método recorrente. Prometia às jovens um ensaio fotográfico que poderia abrir portas como modelo — usava revistas, discurso preparado e o argumento de que o parque oferecia “luz natural” e privacidade. O convite parecia inofensivo o suficiente para que muitas aceitassem. No entanto, as sessões marcadas nas trilhas afastadas se transformavam em armadilhas: aproximação, manipulação, violência e, em muitos casos, morte por estrangulamento.
A investigação e a prisão
Inicialmente, as autoridades trataram os casos como isolados. O padrão da violência, entretanto, emergiu rapidamente. Sobreviventes que conseguiram escapar descreveram o agressor e ajudaram a consolidar o retrato falado. Paralelamente, uma operação que rastreava motoboys da região apontou Francisco como suspeito. Ele fugiu para o Sul, mas foi localizado e preso em 1998.
Durante o interrogatório e no julgamento, a figura de Francisco dividiu especialistas: relatos sobre traumas e vozes internas foram interpretados ora como patologia, ora como manipulação. No fim do processo, ele recebeu mais de 100 anos de pena pelo conjunto de crimes.
Legado e lições
O caso do PREDADOR DO PARQUE foi mais do que uma sequência de crimes brutais: expôs lacunas na proteção às jovens, falhas em políticas públicas e a facilidade com que promessas ilusórias podem ser usadas para explorar economicamente os mais vulneráveis. O Parque do Estado tornou-se um símbolo urbano do medo — mudanças na rotina, perda de espaços públicos de convivência e um alerta sobre como predadores se aproveitam das desigualdades sociais.
Hoje, lembrar desse episódio é também discutir prevenção: educação sobre riscos, fortalecimento de redes de proteção e políticas que reduzam a vulnerabilidade econômica e social de mulheres jovens. Só assim será possível diminuir as rachaduras que permitem a atuação de predadores como Francisco de Assis Pereira.