Retomada do Trump Corollary força Brasil a reequilibrar laços com China e Rússia sem perder autonomia, com foco em infraestrutura crítica e Amazônia
A política externa norte-americana atravessa um retorno a postulados históricos. Se a Doutrina Monroe, de 1823, estabeleceu a premissa de que o Hemisfério Ocidental pertence à área de influência dos Estados Unidos, o “Trump Corollary” recupera esse princípio em versão atualizada e mais agressiva. Ao mesmo tempo, China e Rússia consolidaram presença econômica, tecnológica e logística no Brasil, transformando o país no ponto mais sensível da disputa estratégica das grandes potências no século XXI. A combinação desses movimentos recoloca Brasília no centro de uma disputa que não escolheu, mas que será obrigada a administrar.
O reposicionamento americano tem duas dimensões complementares: a geopolítica clássica, que busca impedir a presença de rivais estratégicos no entorno regional, e a geoeconomia contemporânea, que utiliza fluxos de investimento, cadeias de valor, infraestrutura crítica e tecnologias sensíveis como ferramentas de competição. O Brasil, maior economia latino-americana, maior destino de investimentos chineses no continente e principal hub logístico do Atlântico Sul, tornou-se alvo direto dessa reconfiguração.
O Brasil entre dois mundos: autonomia diplomática pressionada pela realidade
A diplomacia brasileira historicamente defendeu autonomia estratégica, capacidade de interlocução com múltiplos polos e flexibilidade operacional. O problema é que o espaço para essa manobra começa a se estreitar. Para os Estados Unidos, a presença chinesa em infraestrutura portuária, telecomunicações, energia, mineração e sistemas dual-use representa um risco estrutural que precisa ser mitigado. Para a China, o Brasil é peça central de sua estratégia de acesso a alimentos, matérias-primas estratégicas, mercados e rotas marítimas. A Rússia, por sua vez, ganhou relevância na pauta brasileira por meio dos fertilizantes, praticamente insubstituíveis no curto prazo.
Essa triangulação produz um cenário em que Brasília terá de fazer escolhas mais explícitas. E cada uma delas terá custos.
Portos e corredores logísticos: o tabuleiro estratégico do Atlântico Sul
Entre os setores mais sensíveis aos olhos de Washington está a infraestrutura portuária. A presença de empresas chinesas em terminais estratégicos do Atlântico Sul é vista como porta de entrada para influência política e capacidade de projeção indireta de poder. A lógica norte-americana é simples: quem controla os portos controla parte fundamental dos fluxos comerciais, logísticos e até das cadeias militares de suprimento.
O problema é que o Brasil não apenas se beneficiou dos investimentos chineses, como depende deles para expandir sua capacidade de escoamento. A ausência histórica de financiamento doméstico e a limitação de recursos públicos abriram espaço para que conglomerados asiáticos se estabelecessem em terminais críticos. Agora, pressões diretas e indiretas dos EUA tendem a exigir revisão de contratos, limitação de participação acionária ou imposição de mecanismos de auditoria geopolítica, como já ocorre em países europeus.
Diplomatas envolvidos em negociações admitem, em condição de anonimato, que Washington trata o Atlântico Sul como área de prioridade estratégica e vê com grande preocupação o aumento da presença chinesa em portos brasileiros, sobretudo aqueles conectados ao agronegócio e à mineração.
Telecomunicações e o dilema Huawei: onde tecnologia vira política
Outro eixo crítico é o setor de telecomunicações, especialmente a infraestrutura 5G. O Brasil optou por um modelo híbrido: não excluiu fornecedores chineses, mas criou dispositivos de segurança para redes sensíveis. Ainda assim, os EUA manterão pressão para reduzir a participação de empresas como Huawei em estruturas de missão crítica, especialmente em redes governamentais, forças armadas e sistemas de comunicação estratégica.
Executivos do setor afirmam que qualquer movimento de exclusão tardia teria impacto financeiro bilionário. Além disso, o Brasil corre o risco de enfrentar retaliações comerciais ou tecnológicas caso ceda demais às pressões americanas. O tema, portanto, deixará de ser apenas técnico: tornou-se questão central da política externa brasileira.
Defesa e tecnologias dual-use: a nova fronteira da pressão
A presença chinesa em projetos espaciais, satélites, comunicações e sistemas dual-use é vista como ameaça direta pelo Departamento de Defesa dos EUA. Washington já sinalizou que parcerias tecnológicas brasileiras com China ou Rússia poderão limitar o acesso a equipamentos, software militar, intercâmbio de inteligência e até exercícios conjuntos.
A Base Industrial de Defesa (BID) brasileira depende de múltiplos parceiros. Pressões externas podem paralisar projetos inteiros ou obrigar o país a reconfigurar sua matriz tecnológica. O Ministério da Defesa trabalha discretamente para evitar rupturas, mas interlocutores reconhecem que o ambiente geopolítico reduzirá o espaço para ambiguidade.
Fertilizantes: a vulnerabilidade estrutural que se tornou arma geopolítica
A dependência brasileira de fertilizantes russos é um dos pontos mais delicados da equação. Mesmo com esforços de diversificação e produção interna, o setor permanece estruturalmente vinculado a importações. Em um contexto de tensões renovadas entre Rússia e EUA, esse fator pode se transformar em instrumento de pressão indireta.
Washington poderia usar mecanismos de sanções secundárias para impor custos a empresas intermediárias. Moscou, por sua vez, pode explorar a dependência brasileira como alavanca diplomática. E a China, maior produtora mundial de insumos químicos, surge como alternativa, embora também enfrentando restrições estratégicas impostas por seus próprios cálculos internos.
O agronegócio brasileiro, principal motor das exportações nacionais, teme que disputas geopolíticas transformem fertilizantes em um gargalo capaz de gerar inflação, queda de produtividade e instabilidade econômica. A crise de 2022 demonstrou como o país é vulnerável a choques externos nesse setor.
Mineração, lítio e terras raras: o novo ouro estratégico
A competição global por minerais críticos redesenha prioridades. O Brasil possui reservas de lítio, terras raras e outros minerais essenciais para baterias, semicondutores e tecnologias limpas. A China já avançou sobre esse setor, seja por meio de investimento direto, seja por participação em cadeias produtivas. Os EUA, por sua vez, tratam a mineração estratégica como tema de segurança nacional e buscam limitar a dependência chinesa em suas próprias cadeias.
Isso coloca o Brasil como peça-chave em uma disputa que envolve trilhões de dólares. Nos próximos anos, Washington deve ampliar financiamento bilaterial e multilateral, pressionar por mecanismos de governança ambiental e buscar participação ocidental em projetos de exploração. A China tentará preservar e ampliar sua presença atual. E Brasília precisará decidir até que ponto aceita ou resiste à interferência de cada um.
Instrumentos de pressão: como Washington pretende moldar a política brasileira
A leitura americana sobre o Brasil mudou. Washington não pretende apenas competir, mas estabelecer limites claros à atuação chinesa e russa no Hemisfério Ocidental. Para isso, usará uma combinação de instrumentos:
Triagem de investimentos e controles financeiros
O governo americano vem ampliando mecanismos que monitoram e podem vetar investimentos considerados sensíveis, inclusive em países aliados. Embora não tenham efeito jurisdicional direto sobre o Brasil, produzem impacto empresarial e financeiro que molda decisões de atores privados.Sanções secundárias
Podem atingir bancos, seguradoras e intermediários que lidem com empresas chinesas em setores críticos. O temor de exposição a penalidades americanas leva instituições privadas a evitar operações de risco.Pressões diplomáticas diretas
Visitas oficiais, reuniões reservadas e informes de inteligência já alertaram o governo brasileiro sobre riscos de dependência tecnológica e logística.Ofertas alternativas de financiamento
Washington tenta criar condições para que países latino-americanos aceitem investimentos ocidentais em troca de menor presença chinesa.Condicionamento de cooperação militar
Transferência de tecnologia, exercícios conjuntos e acesso a sistemas avançados podem ser usados como moeda de troca.
Três cenários para a política externa brasileira
A pressão sistêmica força o Brasil a considerar cenários antes improváveis.
Cenário 1: Reequilíbrio pragmático
O Brasil mantém parcerias econômicas com China e Rússia, mas aceita limites específicos em setores estratégicos para acomodar interesses americanos. É o cenário mais provável no curto prazo. Reduz tensões com Washington sem romper com Pequim.
Cenário 2: Resistência e custo econômico
O Brasil aprofunda relações com China e Rússia e resiste à revisão de contratos ou restrições tecnológicas. Isso pode provocar retaliações, perda de acesso a mercados e pressão sobre cadeias produtivas.
Cenário 3: Alinhamento com Washington
Um alinhamento mais explícito traria ganhos militares e tecnológicos, mas exigiria sacrifícios econômicos significativos e criaria atritos com China, maior parceiro comercial do país.
Teste decisivo da autonomia brasileira
A reedição da Doutrina Monroe em versão moderna e competitiva, combinada à ascensão chinesa e ao reposicionamento russo, cria um ambiente em que a autonomia estratégica brasileira será testada como nunca antes. Portos, telecomunicações, fertilizantes, mineração e defesa não são mais apenas setores econômicos. Tornaram-se arenas geopolíticas.
O Brasil precisará administrar riscos, diversificar dependências, reforçar instituições e negociar com firmeza. A disputa entre grandes potências deixará de ser tema distante: será vivida diariamente nas decisões de ministérios, agências reguladoras, parlamento e empresas.
A pergunta que se impõe é simples e brutal: até que ponto o Brasil terá espaço real para escolher seu próprio caminho? Os próximos anos dirão se a autonomia brasileira é uma convicção sólida ou uma ilusão confortável.